ESTRANHO AMOR
por Lynn Hirschberg
Vanity Fair
setembro de 92




Courtney Love está atrasada. Ela está quase sempre atrasada, e não só dez, quinze minutos, mas normalmente mais de uma hora além da hora combinada. Ela se atrasa para ensaios, se atrasava quando costumava fazer strip-tease, chegou a se atrasar uma hora para um encontro com um executivo de uma gravadora que queria contratar sua banda, o Hole. Courtney presume que as pessoas a esperem. Ela presume que as pessoas a perdoem depois de ficar olhando para o relógio e olhando para a porta e se perguntando onde diabos ela está. E eles a perdoam. Até não aguentarem mais e ficarem putos, cheios, e irem embora. Mas nessa hora Courtney já se foi - ela está mantendo outra pessoa esperando.

Quando ela aparece, ela aparece. Quando se está uma hora atrasado, pode-se fazer uma entrada triunfal. Ela é alta e forte e seu cabelo nos ombros tem um corte de esfregão e pintado de loiro-amarelo. As raízes escuras aparecem - nada em Courtney é um acidente - e hoje ela colocou uma fivelinha de plástico em forma de lua para segurar umas madeixas. Ela está usando meia-calça preta rasgada, um vestidinho em tamanho pequeno demais e um par de tamancos pretos. Sua pele, cheia de pancake e talco para cobrir uma crise de acne, é branca, e seus lábios estão pintados de vermelho brilhante. Ela tem belos e grandes olhos azul-esverdeados, que ela cuidadosamente destaca, mas o foco é mesmo sua boca. Ela é toda batom.

E conversa. Desde o momento em que Courtney senta numa mesa no City, seu restaurante favorito, perto de sua casa em Los Angeles, a pirotecnia verbal começa. Você fica com a sensação de que ela tem um monólogo acontecendo 24 horas por dia e que às vezes inclui terceiros. Quando não está falando, ela não parece estar exatamente escutando, mas sim absorvendo: Quem é esta pessoa? Qual o seu contexto? O que posso aprender/tirar dela? são os pensamentos que passam por seu cérebro. Com Courtney, não é tanto o planejamento e sim o foco. Ela descobriu o que queria e o que queria era ser uma estrela. Mais precisamente, Courtney sempre soube que era uma estrela. Estava apenas esperando todo o resto acordar.

Parece que, depois de alguns falso começos - uma carreira de atriz que não decolou, alguns trabalhos com outras bandas que não deram certo - Courtney está tendo seu momento. Ela e o Hole acabam de assinar um contrato de um milhão de dólares; ela está casada com Kurt Cobain, o vocalista do Nirvana, e na cena da música alternativa, Courtney é definida como uma personalidade de acidente de trem: pode ser horrível, mas você não consegue tirar os olhos dela.

Sua oportunidade é excelente: com o enorme sucesso do Nirvana, uma banda de Seattle extremamente talentosa que surpreendeu a todos na indústria vendendo (até agora) sete milhões de álbuns no mundo todo, houve um frenesi para contratar outras bandas do mundo punk-grunge-underground. A música varia do quase-pop ao barulho sujo - a única coisa que as une de verdade é que a maioria das bandas são de gravadoras independentes e atraem o público jovem. "Ninguém consegue uma passagem para Seattle ou Portland hoje em dia", diz Ed Rosenblatt, presidente da Geffen, gravadora do Nirvana. "Todo vôo está reservado pelo pessoal da A&R para procurar o próximo Nirvana."

Em agosto, o Hole, que é muito mais pesado e menos melódico que o Nirvana, lançou Pretty On The Inside pela Caroline Records, um selo independente, subdivisão da Virgin. O álbum é intensamente difícil de escutar - Courtney canta de um jeito meio gritado, arranhado, cortante - mas suas letras, que têm sido comparadas com as de Joni Mitchell, são poderosas. Pretty On The Inside, escreveu Elizabeth Wurtzel no New Yorker, "é tão cheio de cacofonias tão abrasivas e barulhos desagradáveis que muito pouca gente vão gostar dele no início, mas depois de repetidas audições você descobre que é provavelmente o mais provocador álbum lançado em 1991."

A atitude pós-feminista de Courtney (ela tem o poder - ela só quer ser amada) ecoa em suas músicas. Seus assuntos preferidos - estupro e aborto, para citar dois - são extremamente provocantes. "Corte-me e chupe minhas cicatrizes", ela canta sobre sexo. "Não se preocupe, querida, você nunca mais vai cheirar tão mal", ela entoa sobre uma cirurgia abortiva. Em sua música mais forte, "Doll Parts", ela fica introspectiva: "Quero ser a garota com o maior pedaço do bolo/Ele só ama essas coisas porque ama vê-las quebrar/Acho que é tudo verdade - Estou além da mentira/Um dia você vai doer como eu dôo."

Antes mesmo do sucesso massivo do Nirvana, o Hole foi misturado às Babes In Toyland, L7, as Nymphs e outras bandas lideradas por garotas. Embora essas bandas fossem bem diferentes entre si e selvagemente competitivas, foram todas rotuladas "foxcore". E quando Nevermind, do Nirvana, começou a vender horrores, as tão faladas bandas foxcore subitamente pareceram comercialmente viáveis. "Há uma percepção pré-Nirvana da indústria musical deste tipo de música", diz Gary Gersh, executivo da Geffen Records que contratou o Nirvana. "E há uma perspectiva pós-Nirvana da mesma indústria. Mas se você está por aí tentando contratar o próximo Nirvana, está perseguindo o próprio rabo. O jogo não é encontrar o próximo Nirvana, porque não haverá um próximo Nirvana."

Foi de alguma forma adequado que a nova gravadora de Madonna, a Maverick, fosse a primeira a se interessar por assinar com Courtney Love um contrato maior. Em meados de 1991, Guy Oseary, um entusiástico rapaz de 19 anos que trabalhava para Madonna e seu empresário, Freddy De Mann, em sua desconhecida companhia, falou do Hole para seus patrões. Ele também contactou a advogada de Courtney, Rosemary Carroll, e a Hole-mania começou. "Courtney estava orquestrando seu plano desde o início", diz Carroll. "Ela sempre soube muito bem do negócio e do seu lugar no negócio."

Courtney alega que nunca quis assinar com a Maverick. "Freddy me botaria montando elefantes", diz ela. "Eles não sabem o que sou. Para eles, sou um visual, uma moda". A presença de Madonna a preocupou ainda mais: ela não queria dividir a atenção com a maior deusa loira da última década. "O interesse de Madonna por mim era como o interesse de Drácula pela próxima vítima."

Mas Courtney, que não é nada se não astuta, sabia que a única oferta seria de impulso. Além do mais, ela tinha outra carta na manga: no final de 91 ela estava namorando Kurt Cobain. Quando o Hole foi à Inglaterra, ela não teve papas na língua quanto ao interesse de Madonna ou seu novo namorado. Ela deu um monte de entrevistas e as notoriously fickle revistas musicais inglesas, que adoraram seu som grunge-rock e seus vestidinhos rasgados, a proclamaram seu novo gênio. "Os tablóides ingleses me chamaram de 'pernuda' e 'deslumbrante'", ela lembra. "O melhor artigo era sobre a Madonna. Tinha uma grande foto de mim, loira, e uma fotinho dela, morena. Esse eu recortei."

Por sua vez, Oseary, que via Courtney e o Hole como sua descoberta particular, ficou chocado. "As reportagens da imprensa inglesa falavam, 'Madonna não tem AIDS e quer contratar o Hole'", ele lembra, soando um tanto exasperado. "Dali em diante, era 'o Hole de Madonna', 'o Hole de Madonna'. De repente, éramos só mais um dos concorrentes. No show do Hole seguinte, treze executivos da A&R estavam lá!"

Assim começou a primeira guerra por uma banda de garotas sem gravadora (na indústria musical, selos independentes não são consideradas - até que esteja numa gravadora importante, você não tem gravadora). Não estava claro se a maioria dos negociantes gostavam ou não, ou até conheciam, a música do Hole - era a combinação mágica do interesse de Madonna, do interesse de Kurt Cobain, e a força da personalidade de Courtney. De qualquer forma, Clive Davis, presidente da Arista Records, aparentemente ofereceu um milhão de dólares para contratar a banda. Rick Rubin, cabeça da Def American, estava interessado, mas ele e Courtney se estranharam ao se conhecerem. Ela teve dificuldades parecidas com Jeff Aueroff, da Virgin. "Agora Kurt", ela exclama, "pode ir à Capitol, entrar numa reunião, decidir que não está gostando na metade, sair enquanto um cara fala e todos falarem 'Lá vai o Kurt. Ele é tão temperamental. O Nirvana é ótimo'. Eu passo três horas com Jeff Ayeroff e lhe conto mais sobre punk rock do que ele jamais soube. Lhe ofereço um tempo precioso, mas me desculpo, não quero assinar com sua gravadora, e ele fica puto com isso e me chama de vaca."

No final, ela assinou com Gary Gersh, da Geffen, gravadora do Nirvana. "Não a contratamos por ser casada com Kurt Cobain", diz Ed Rosenblatt. "Mas é um pouco estranho. Hole é uma banda na qual por acaso acreditamos e que, por falar nisso, ela é casada com..."

O contrato de Courtney, à volta de um milhão de dólares, é maior e melhor que o do marido. Ela e Carroll insistiram nisso. "Eu achava excelente, excelentes coisas contratuais," ela se gaba. "Eu os fiz retirar o contrato do Nirvana, e tudo por aí, eu queria mais. Eu estou em cima de meio milhão para meus direitos de publicação, e eu ainda estou a pé. Se aqueles sexistas cuzões querem pensar que Kurte e eu escrevemos músicas juntos, eles podem vir adiante com um pouco mais." Ela faz uma pausa. "Não importa em que gravadora esteja, vou ser a mulher dele", diz ela. "Sou capaz de transcender isso."

Provavelmente. Mas no círculos em que frequentam, Kurt Cobain é visto como um homem santo. Courtney, ao contrário, é vista por muitos como uma carismática oportunista. Têm havido comentários sobre os problemas de drogas do casal, e muitos acreditam que ela apresentou Cobain à heroína. Eles estão esperando um bebê para este mês, e até os mais tolerantes colegas temem pela saúde da criança. "É horrível pensar que ela estaria tomando drogas sabendo que estava grávida", diz um amigo próximo. "Estamos todos preocupados com o bebê."

"Courtney e Kurt são a versão mais talentosa e anos 90 de Sid e Nancy", diz um executivo. "Ela vai ser famosa e ele já é, mas a não ser que algo aconteça, eles vão se auto-destruir. Sei que ambos serão grandes estrelas. Só não quero fazer parte disso."

Courtney já ouviu tudo isto antes e, de uma maneira perversa, ela ri disso. "Ouvi um rumor de que eu e Madonna estávamos tomando heroína juntas", ela diz um tanto divertida, acendendo um cigarro. "Ouvi dizer que fiz sexo no palco e que sou HIV positivo."

Courtney ri. Nenhuma dessas afirmações é verdade, embora o assunto sexo no palco seja um rumor persistente. "Agora", ela continua, batendo com o cigarro na beira de um cinzeiro, "Tenho uma chance de me explicar. E se eu o faço, faço. Se não, ei, estou casada com um homem rico!"

Ela inspira, para um efeito dramático. Está brincando, de repente não está mais. A audácia é uma das razões de seu encanto. "Sabe, não consigo achar maquiagem que não saia no verao", ela diz, mudando abruptamente de assunto. Courtney pega seu cigarro, pega sua bolsa e vai para o banheiro.

"Só cerca de um quarto do que Courtney diz é verdade", diz Kat Bjelland, lídar das Babes In Toyland. "Mas ninguém costuma se incomodar em decifrar quais são as mentiras. Ela é toda imagem. E isso é interessante. Irritante, mas interessante."

Quando se trata de informações biográficas, Courtney é difícil de acompanhar. Ela diz que nasceu em San Francisco em 1966 (data que parece não ser a dela é provável que ela tenha 26 anos, embora nem tanto), o pai dela estava envolvido em Grateful Dead, e a mãe dela, era de uma família rica, era uma seguidora de vários gurús. (Ela não fala muito do pai dela, e da mãe dela, que tendo casado várias vezes está mais proxima dela com os quatro meio-irmãos de Courtney, um dos quais é o estudioso Rhodes.)

Courtney odiava a escola e viajou bastante: desde a Nova Zelândia à Austrália até onde ela acabou parando - Oregon. Aos doze anos, ela roubou uma camiseta do Kiss da Woolworth's e foi mandada para um centro de assistência juvenil. "Para ser sincera", ela lembra, "Mergulhei de cabeça nisso. Eu era apática quanto à minha delinquência. Eu a estudei. Aprendi muito. Cresci sem disciplina e aprendi muito sobre negação. Não teve nenhum efeito adverso em mim."

Três anos depois, por volta de 1981, ela estava fora e vivia em poucos recursos. Ela tinha praticamente decidido que a música seria o seu mundo. Ela começou a trabalhar de stripper, e por aí afora,ela sustentou a maior parte de sua vida adulta. "Não queria vender drogas", ela explica. "Não queria roubar carros. Não queria ser uma prostituta. Então fiz strip-tease."

"E era gorda na época", ela continua. "Dá pra ser gorda e fazer strip. Eu fazia no Jumbo's Clown Room. Ou eu trabalho um dia na Seventh Veil. Eu não tenho um gimmick*. Vejo garotas agora tentando ser alternativas. Elas não vão conseguir um centavo. Você tem que ter as sondas brancas, o biquíni rosa, a puta peruca , batom rosa. Bronzeado dourado e branca. Se você arriscar e jogar um pouquinho de si mesma naquilo não vai conseguir dinheiro algum."

Através dos classificados de um fanzine punk chamado Maximum Rock N'Roll, Courtney começou a se corresponder com Jennifer Finch, um espírito carnal que morava em Los Angeles. "Fui visitá-la", diz Courtney, "e entrei no glamouroso mundo do trabalho de figurante."

Jennifer trabalhava fazendo personagens punks em programas de TV como Quincy and ChiPs, e trouxe Courtney com ela. "Conheci um monte de gente lá", diz ela. E uma delas foi Alex Cox, que estava prestes a dirigir Sid & Nancy. "Todos os figurantes punks tentaram papéis em Sid & Nancy, Courtney lembra. "Ele me conheceu e passou o braço no meu ombro e me disse a coisa mais subversiva que conseguiu pensar: 'espete-me pelo mundo'. Nessa época eu também estava bem acima do peso. Mas não estava assustada. Queria atuar desde que Tatum O'Neal ganhou o Oscar."

Ela foi escolhida como a melhor amiga de Nancy Spungen, e quando Cox escreveu Straight To Hell, uma comédia de faroeste incompreensível, deu um papel para ela. Haviam rumores de que os dois eram namorados, mas Courtney nega veementemente qualquer envolvimento romântico. "Era assexuado", diz ela. "As pessoas dizem que éramos um casal porque é a única maneira que encontram de explicar seu interesse por mim. Naquela época, não dormi com ninguém. Eu era gorda, e quando se é gorda não se dá as cartas. Não se tem o poder."

Depois de Straight To Hell, Courtney resolveu abandonar (brevemente) suas aspirações musicais e se concentrar no cinema. Ela pegou os 20.000 dólares que havia recebido, saiu da casa de Jennifer, alugou um apartamento e comprou um terninho rosa Channel. Estava andando de ônibus - ela ainda não sabe dirigir, apesar de ter vivido em Los Angeles por dez anos - mas estava bem-vestida.

"Eu não exatamente forcei a barra", ela diz. "Um amigo foi a uma festa e disse a Jennifer: 'Courtney estava usando Channel e tinha um copo de champanhe na mão, mas sua maquiagem era exatamente a mesma'. Não era bem assim. Tinha um jornalista obcecado com Madonna e obcecado por mim e ele decidiu fazer de mim uma estrela. Eu não poderia ter forçado a barra. Ficaria com espinhas."

Ocorreu a Courtney que dava para ter acne e ainda ser uma estrela de rock, então ela voltou para Portland, emagreceu e começou a cantar em bandas, inclusive Faith No More, com a qual saiu em turnê com o Guns N'Roses e Metallica. Ela conheceu Kat Bjelland, e em 84 ou 85 Courtney e Jennifer e Kat se mudaram para San Francisco e começaram uma banda chamada Sugar Baby Doll. "Éramos pinafores, e tocávamos Rickenbackers de doze cordas", diz ela. "Era um desastre". Não era uma banda punk - o Sugar Baby Doll era mais mais suave, mais doce. "Jennifer e eu não gostávamos muito", lembra Kat. "Queríamos tocar punk-rock. Courtney achava que éramos loucas. Ela odiava punk na época."

No mundo alternativo, integridade e credenciais são tudo - e Courtney é vista pela maioria como uma pessoa tardiamente convertida ao mundo punk. "Eu era mais New Wave do que hardcore", admite ela. "Achava a cena punk feia e sem glamour e precisava ser glamourosa. Estou nela agora, mas antigamente eu iria a um show do Black Flag (banda punk seminal de Los Angeles) e me recusaria a entrar. Era só um bando de garotos se matando."

Depois da experiência em São Francisco, ela foi para Minneapolis e tocou brevemente com a nova banda de Kat, Babes In Toyland (Jennifer tinha voltado para L.A., formando sua banda, L7). Ela e Kat brigaram, e ela foi para o Alaska fazer strip. Então passou um tempo em Portland, e lá por 1989 voltou para Los Angeles. "Eu simplesmente não podia ir para nenhum outro lugar", ela explica. "Minneapolis era tão despretencioso. Todo mundo tem uma coleção de flanela e está numa banda cujo nome foi tirado de um instrumento de solda."

Ela colocou um anúncio no Recycler ("Quero começar uma banda. Minhas influências são Big Black, Stooges, Sonic Youth e Fleetwood Mac") e fez strip para pagar o aluguel. "Trabalhei no Star Strip", conta. "As garotas nesse lugar são superconstruídas. Elas são um pouco chiques. Três delas tinham comido o Axl Rose". Logo ela tinha montado o Hole e começado a ensaiar.

"A primeira vez que a vi no palco ela estava vestida como uma debutante", diz Rosemary Carroll, advogada de Courtney. "Seu vestido estava rasgado e ela estava toda esculachada, exceto por um enorme arco rosa perfeitamente pressionado nas costas do vestido.Ela estava se rebitando pra assistirem. Courtney tinha uma presença e poder fascinantes."

O Hole tocou por L.A., mas não foram descobertos até irem à Inglaterra no final de 1991. Courtney pode ter sido o salto do vagão das bandas sobre o foxcore / alternativo na América (embora ela queria de outra forma), mas na Inglaterra foi vista como original. Com seus babydolls sujos e canções retorcidas sombrias, ela era a pin-up favorita da imprensa musical inglesa. "Pensei que eles ficariam horrorizados comigo", diz ela, "Essa americana barulhenta! Mas funcionou! Vendemos muitos discos."

E eles voltaram para os EUA no meio de fofocas. Na época, ela estava com Kurt e o episódio com Madonna aconteceu e tudo estava entrando nos eixos. "Não foi surpreendente", diz Courtney. "Quero dizer, eu não me surpreendi. Eu sempre soube."

Isso era cerca de 7:00 PM de uma suave noite de começo de verão e Courtney esta batendo na porta do apartamento dela. Ela perdeu a chave dela ou esqueceu a chave dela ou ela não conseguiu achar a chave dela. Que seja. "KU-RT," ela canta. "Venha até a porta."

Depois de uma pequena espera, ele abre. "Onde estão suas chaves?", ele pergunta, com ar de quem acabou de acordar. Kurt está usando calças de pijama, está sem camisa e tem um bracelete cintilante no pulso. Ele é pequeno e muito magro e tem uma pele branco-pálida. Seu cabelo, que ele pintou de vermelho e roxo no passado, está agora loiro, e seus olhos são muito azuis. Seu rosto é bem bonito, quase delicado. Enquanto Courtney projeta força, Kurt parece frágil. Parece a ponto de se quebrar.

"Deus, está quente aqui", diz Courtney, entrando no apartamento. Kurt explica que ligou o aquecimento - parece que tem ums 100º na sala. "Ainda estou com frio", ele diz, desabando numa poltrona cheia de coisas. Parece exausto.

Sua casa, na área Fairfax de Los Angeles, é parcamente mobilhada. Há guitarras em suas caixas abertas pelo chão, e um altar budista contra uma parece. Flores mortas repousam num vaso ao lado de um par daquelas bonecas anatômicas transparentes. Na verdade, há bonecas por toda parte: bonecas de criança com cabeças de porcelana que Kurt vai usar no próximo clipe do Nirvana, uma boneca de plástico que ele achou numa turnê e muitos, muitos macaquinhos. Pintada na lareira, coberta por corações e caixinhas em forma de coração, estão as palavras rabiscadas MEU MELHOR AMIGO. "Tivemos uma briga a noite passada", explica Courtney. "Escrevi isso para lembrá-lo."

Ela continua a volta pelo apartamento, mostrando um desenho da irmã de Kurt, uma foto dele aos seis anos com uma bateria, outra boneca, cuja cabeça está quebrada. Na cozinha, Courtney tem recadinhos por todo lado. "A ex-namorada de Kurt as fez", diz ela. "Achei quando revirei as coisas dele". Ela lê em voz alta uma delas: "1. Bom dia! 2. Você poderia encher o tanque do meu carro? 3. Varrer a cozinha. 4. Limpar a banheira. 5. Ir ao K-Mart. 6. Trocar um dólar". Este último parece diverti-la. "Ele nunca fez nada disso."

O telefone toca. Kurt já desapareceu, e Courtney vai atender. "Olá, Dave", diz ela. É Dave Grohl, baterista do Nirvana. A banda tem estado em hiato nos últimos meses e Dave está ligando de Washington. "Vou chamá-lo", diz Courtney, parecendo um pouco mais que levemente perturbada. Ela abaixa o fone. "Pode me chamar de Yoko Love", diz. "KURT!". Kurt se senta com o telefone e Courtney deita num sofá sem pernas. Ela usa um vestido florido verde rasgado de forma que seu sutiã está à mostra. "Eles todos me odeiam", diz ela. "Todo mundo me odeia pela minha coragem."

Pode ser verdade. Desde que a relação de Courtney e Kurt começou no ano passado, ela parece ter se estranhado com Grohl e Chris Novoselic, os outros dois membros do Nirvana. "Courtney sempre tem um plano oculto", diz alguém próximo à banda. "E Kurt não. Ele está definitivamente sendo levado."

Enquanto isso é difícil determinar Courtney está além do que diz respeito a Kurt, ela tem muitos mini-reinos. Sua maior reclamação em termos de Nirvana parece ser a esposa de Novoselic, Shelli. A explicação de Courtney é vaga - algo sobre Shelli fazer Kurt dormir no corredor de sua casa. "Não a deixei vir ao meu casamento", diz Courtney.

Ela definitivamente aprecia sua posição como a Sra. Kurt Cobain. Era um de seus objetivos, não algo deixado nas mãos do destino. O casal se conheceu há uns oito anos em Portland. "Na época", ela lembra", não tínhamos sentimento um com o outro. Era tipo, 'Você vai vir aqui em casa', 'Você vai se levantar?', 'Vai se foder'. Esse tipo de coisa."

Quando voltaram a se encontrar, Kurt era uma estrela e Courtney foi muito menos casual ao se aproximar. Ela entendeu que, quando se fala de romance, um comportamento agressivo pode ser bem atraente. "As pessoas dizem: 'Como ela conseguiu o Kurt?'", diz um amigo. "Bem, ela pediu. E não aceitaria um não como resposta."

Courtney o perseguiu por meses - conseguiu seu telefone, ligou, disse a jornalistas que estava apaixonada por ele. Até apelou para a religião. "Courtney rezou para que o cara mais legal do rock'n'roll - que, para ela, era Kurt - namorasse com ela", diz Jimmy Boyle, um amigo que trabalha para o Def American. Finalmente, ela persuadiu um "anseio, por favor" o prospectivo gerente para conseguir os bilhetes (avião e o show) para um show do Nirvana em Chicago.

*gimmick - característica especial, marca registrada


Traducao por: Juliane Natacha