Renascida do inferno
por Ivan Claudio
Revista Isto é
9 de Abril de 1997
Courtney Love despede-se do passado maldito, recheado de drogas e confusões, e monta imagem de boa moça.
Nos áureos tempos do grunge - gênero de rock que se consagrou pela gritaria, guitarras distorcidas e uso de roupas desleixadas -, a banda Nirvana reinava nas paradas de sucesso do mundo inteiro. Era um tempo em que Courtney Love, mulher do falecido líder do grupo de Seattle, Kurt Cobain, adorava um escândalo. À frente de seu conjunto, sintomaticamente batizado de Hole (buraco em inglês), promovia shows tão pesados quanto os do marido, andava encardida, desgrenhada, com maquiagem excessiva e não raro se metia em confusões com fãs e polícia. Nem um pouco afeita às boas maneiras, Courtney sequer escondia sua dependência da heroína, a droga que em 5 de abril de 1994 levou o atormentado Cobain a disparar contra a cabeça um tiro de espingarda. Revelada agora como promissora atriz no filme O povo contra Larry Flynt, de Milos Forman - cinebiografia do criador da revista masculina Hustler, indicado ao Oscar em duas categorias -, Courtney Love parece estar dando adeus à fase maldita. "Vou ficar dois anos em total abstinência, depois decido se tomo vinho", confessou ela, recentemente, à revista americana de cinema Premiere. Para quem teve uma vida pregressa nada familiar, a declaração causou espanto. Mas esta não foi a única surpresa reservada por esta bela loira de olhos demoniacamente verdes.
Acostumada a frequentar a lista das mulheres mais mal vestidas do ano, a roqueira resolveu definitivamente enterrar a antiga imagem. Na cerimônia de entrega do 69º Oscar, há duas semanas, ela surgiu num elegante longo branco assinado por Valentino, adornada com um colar de diamantes avaliado em US$ 1 milhão. Ironicamente, subiu ao palco do Shrine Auditorium, em Los Angeles, para anunciar o prêmio de melhor maquiagem. Cabelos limpos e cortados no estilo Chanel, Courtney demonstrava ter passado um bom tempo diante do espelho. Justo ela que antes afirmava não gostar nem de banho. Até prova em contrário, a volta por cima na carreira da roqueira e atriz de 32 anos não parece ser apenas uma brincadeira publicitária. "Este filme (O povo contra Larry Flynt) representa para mim a vitória da nova Courtney sobre a velha", disse. "Cansei de ser largada, cínica e debochada, coisas que se esperam de um roqueiro. Agora quero fazer parte do sistema." A mudança foi habilmente arquitetada. Para ganhar o papel de Althea Flynt - a mulher de Larry Flynt, uma ex-stripper e viciada que morreu afogada em sua banheira em 1987, aos 34 anos, doente de Aids - Courtney contratou os serviços de Pat Kingsley, uma das mais eficientes agentes de Hollywood. Na lista de clientes da poderosa empresária estão nomes como os de Tom Cruise, Jodie Foster e Demi Moore. Ciente de sua má fama, a ex-rebelde agiu com pragmatismo ao ligar chorando para a agente, às quatro horas da madrugada. "Você precisa de um desafio profissional?", perguntou à queima-roupa.
O resultado da decisão é evidente no seu crescimento como atriz. Só que não é de agora o namoro de Courtney Love com o cinema. Na primeira tentativa ganhou uma ponta fazendo uma punk em Sid & Nancy - o amor mata, de Alex Cox, em 1986. Dez anos depois, em Basquiat - traços de uma vida, encarnou a louca Big Pink, uma das namoradas do pintor, morto de overdose em 1988. O maior problema de Courtney, no entanto, não foi provar que seria capaz de encarar um papel principal numa superprodução. Mais difícil era convencer os executivos da Columbia Pictures de que não causaria problemas à produção. Parte ou não do marketing roqueiro, Courtney e Cobain faziam questão de reforçar a rebeldia com o uso de drogas pesadas. Quando veio ao Brasil, em 1993, acompanhando o marido nas péssimas e enganosas apresentações do Nirvana no Hollywood Rock, ela se pegava a tapas com Cobain por causa de cocaína. Bebia vodka no gargalo e beijava na boca as amigas do grupo feminino L7, alardeando uma provável bissexualidade. Durante a estadia no Hotel Intercontinental, no Rio de Janeiro, brigou com Cobain e atirou todas as suas roupas pela janela. Enquanto o vocalista engatinhava pelo jardim apanhando seus pertences, gritava "odeio minha mulher", "odeio o rock'n'roll". Nas filmagens de O povo contra Larry Flynt ninguém presenciou Courtney fazer alguma baixaria do tipo. Mesmo assim um seguro de US$ 750 mil - cotizado entre ela, o diretor Milos Forman, os produtores e o ator Woody Harrelson, que interpreta Larry Flynt - foi feito no caso de acontecer alguma recaída da cantora e atriz. Também como garantia, uma exigência antidopping determinava que ela fizesse exames semanais de urina.
Constrangimentos como estes não a incomodaram. Ela só se preocupou em não ganhar peso enquanto filmava. "Muito mais indelicado é ser chamada de gorda." Para viver Althea, ela perdeu dez quilos e teve apoio do mesmo preparador físico de Demi Moore. No filme, a semelhança entre atriz e personagem é impressionante. Impiedosa, a crítica especializada chegou a afirmar que Courtney apenas interpretou a si própria. A exemplo de Madonna, ela também cultiva seus desafetos com a imprensa. Muitas vezes foi acusada de usar a fórmula escandalosa da cantora de Like a virgin. Courtney detesta a comparação. "Que Madonna! Sou uma mistura de James Dean, Charles Bronson e Sean Penn", diz ela. Realmente, na disputa das biografias contundentes, Courtney ganha disparado. Filha de um casal de hippies de San Francisco, deixou de ver o pai com poucos meses de idade. Aos oito anos, num dos reencontros, ele lhe deu LSD. "Foi sua grande contribuição à minha educação." Hoje, a roqueira detesta o pai. Muitas vezes ele afirmou em declarações à imprensa que a filha era a assassina de Cobain. Outros pais, talvez menos inconvenientes, não lhe faltaram. A mãe casou-se muitas vezes, fato que a obrigou a passar a adolescência em várias cidades americanas. Aos 13 anos, foi internada num reformatório por causa de um pequeno furto. Fugiu de lá e colocou o pé na estrada, chegando a trabalhar como stripper em países asiáticos. Somava ao seu cachê uma pensão mensal de US$ 400 retirada da herança de US$ 100 mil deixada pela avó. Com 22 já tinha gasto todo o dinheiro.
Desde cedo, a roqueira sabia que não seria uma pessoa comum. Quando se mudou para Los Angeles, nos anos 80, quis montar uma banda de rock com um namorado. Não deu certo e acabou como empregada doméstica na casa de Dennis Hopper. Saiu do anonimato ao conhecer Kurt Cobain, com quem teve a filha Frances Bean, hoje com quatro anos. Há oito montou o fraquinho grupo Hole, que acaba de finalizar o terceiro álbum, Celebrity skin. Apesar de ter frequentado os primeiros lugares das paradas com sua música barulhenta, o sucesso de Courtney Love, de certa forma, gravitava na esfera do marido. Com muito esforço, deixou de ser a Adriane Galisteu do rock. Ela até já cunhou frase a respeito da metamorfose. "Agora só faço filmes com a marca Merchant-Ivory", afirmou, referindo-se à parceria do produtor Ismail Merchant e do diretor James Ivory, de Retorno a Howards End, a dupla responsável pelas histórias mais chiques do cinema. A ex-musa grunge, de verdade, já está integrada ao sistema.
Fonte: ISTO É